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por O Fiscal, em 25.02.14

DN - OPINIÃO

 

O Governo, as ondas e a nossa costa

por MÁRIO SOARES 

Hoje                          

 

Nos últimos dias o tempo invernoso que tanto nos tem afetado acalmou. E o Governo, interessado em esconder o "milagre económico" de que falou o ministro Pires de Lima, nunca se ocupou das ondas gigantes que arrasaram a costa portuguesa, de norte a sul. Nunca disse como e quando vai indemnizar os estragos causados, como lhe é devido, e lhe tem sido pedido, em vão.

Como se isso não tivesse qualquer importância. Ora tem. E muita, como todo o País percebe. O Governo parece não ter compreendido a gravidade do fenómeno inesperado ocorrido, nem a necessidade imperiosa de indemnizar os municípios, as cidades e vilas ao longo da nossa costa. Num momento tão eufórico, em que o Governo diz estar a viver um novo ciclo económico, mas não as pessoas. Com excepção do Fundo Monetário Internacional (FMI) que diz o contrário e sabe bem porquê.

O Governo, apesar de ter, ao que diz, abandonado o economicismo inicial e, agora ter-se tornado social--democrata, pois então, depois de ter destruído o Estado social, o Serviço Nacional de Saúde e grande parte das nossas universidades e tribunais, sem ter em conta os milhares de portugueses na miséria, no desemprego, no desespero, a fugir para outros países ou lançados na criminalidade, que também há e cada vez mais.

Entretanto, cientistas, escritores, poetas, artistas plásticos, etc., estão a desaparecer. Isto é, todos os que não estão a enriquecer à custa da gamela do poder, mas que ninguém sabe quantos são e o que fazem. Um ministro disse "o Estado está bem, o povo é que não". Pudera. Sem se aperceber que o povo é que conta.

Volto ao fenómeno - nunca antes visto - das ondas gigantes que destruíram uma parte da nossa costa e das nossas praias. Será que o Governo estudou o assunto, como devia ter feito? Não creio. A verdade é que não falou em tal.

Trata-se da questão do ambiente e particularmente dos oceanos, como o Atlântico, tão importantes para o nosso espaço marítimo, que estão em mudança acelerada. Infelizmente, a própria ONU parece ignorar esta situação. Por causa dos mercados e da globalização economicistas, esquecendo-se que estão a destruir a Terra e, consequentemente, os próprios humanos.

Muitos cientistas e pessoas esclarecidas têm vindo a refletir sobre a situação gravíssima que a ganância dos mercados implica, sem ter em conta os perigos que a Terra corre. As faunas e as floras, como as florestas, estão a desaparecer. Veja-se as chuvadas torrenciais que o Reino Unido está a sofrer. Os tufões, os tremores de terra, os tsunamis no Japão, as ilhas Filipinas, algumas já desaparecidas, a imensidade de neve e gelo que tem assolado os Estados Unidos.

Ora, Portugal é um país marítimo, com uma zona económica exclusiva de que nos orgulhamos. Mas temo-la estudado, como devíamos, como alguns cientistas, como Mário Ruivo e o atual ministro Moreira da Silva, tanto explicaram? Não creio.

Pergunta: terá o Governo auxiliado os Açores e a Madeira, tão importantes para a proteção do nosso espaço marítimo, e dadas as desgraças que têm estado a sofrer? A propósito: será que o Governo já conseguiu tapar o imenso buraco financeiro, relativamente à Madeira, ao qual nunca mais se referiu?

São silêncios que o Governo tinha obrigação de esclarecer os portugueses. Mas não o fez. E por alguma razão assim sucede. Para gente como na RTP, agora governamentalizada, o que nunca aconteceu, em democracia (é certo que para o atual Governo não existe, mas evoca-a a todo o momento), trata-se de silêncios muito suspeitos. É certo que o Governo fala, fala, mas a regra é que ninguém o entende.

O Governo é obrigado a indemnizar os municípios, as cidades e os proprietários de tantos bares e restaurantes que desapareceram nas praias. Os pescadores perderam o seu sustento, sem se poderem fazer ao mar ou lá ficando. Mas, que se saiba, o Governo não agiu para melhorar a situação, embora alguns dirigentes municipais e visados, já o tenham reclamado. Era essa promessa em concreto que se esperava que o primeiro-ministro e o seu vice, com tanta euforia, já deviam ter resolvido. Mas não. Embora o dinheiro para dar à troika e para os seus apaniguados, esse, não falte...

Portugal, de uma assentada, perdeu praias, viu arrasadas estradas, derrubados muros de proteção, etc. Houve imensas destruições e até agora nada foi feito. A nossa costa encurtou de norte a sul, muitos metros, porventura para sempre. E o Presidente e o Governo não falam, não explicam aos seus concidadãos a catástrofe que aconteceu, as perdas, e algumas mortes. Que gente é esta, que responsabilidades têm os que nos governam ou dizem governar-nos que não ajudam as pessoas em dificuldades?

A indignação é cada vez maior. O povo está cada vez mais empobrecido, desesperado e sem ver uma saída próxima. Um dia os portugueses dirão: basta! E não quererá um novo 28 de Maio - como o Governo parece desejar - mas reclamará um novo 25 de Abril...

A Cultura é importante?

Uma nação sem cultura não é nada. Podemos dizer que não existe. É a cultura que define uma nação. Portugal, cuja independência é das mais antigas da Europa, e que "deu novos mundos ao mundo", como disse o nosso épico, Luís de Camões, foi sempre um Estado de grande cultura, com cientistas, escritores, filósofos, artistas, atores e inúmeros poetas de grande qualidade.

O atual Governo deixou cair a cultura, que está hoje reduzida a quase a zero. Embora haja, vindos do passado e alguns jovens, excelentes escritores, poetas, artistas plásticos e atores. Mas o Estado ignora-os.

Deixou de haver ministro da Cultura, por falta de verba - há dinheiro para tudo, excepto para a Cultura - e há tão-só um secretário de Estado, que se tem revelado incompetente, como no caso dos quadros de Miró demonstrou.

Disse um dos apaniguados de Franco, em Saragoça, crítico e inimigo do grande Unamuno, amigo de Portugal, numa discussão: "Quando oiço falar de cultura, puxo logo da pistola." O atual Governo parece partilhar dessa tese. A cultura não é com ele. É uma das razões pelas quais a nação está em esmagadora maioria contra o atual Governo. A cultura, a inteligência, a ciência, as artes, o pensamento, não contam para o atual Governo, que tem vindo a destruir a nossa classe média e tudo o que a democracia, saída do 25 de Abril de 1974, fez pelos portugueses e pelo Estado social.

Dinheiro sim e os mercados a dominarem a política. Bem como a troika e a austeridade que continuam a destruir Portugal. Mas cultura, que horror. Não há sentido crítico. Não interessa ao atual Governo, de palavra fácil mas sem qualquer conteúdo. E os apaniguados que só pensam no dinheiro.

Acabámos de assistir a um caso inaceitável e humilhante de um grande cantor, Fernando Tordo, tão popular e inteligente, ter sido obrigado a sair de Portugal para poder ganhar a vida no Brasil. Que profunda tristeza e incapacidade a deste Governo, aliás completamente paralisado.

Não havendo cultura, a nação perde todo o sentido. É o que está a acontecer.

O Governo e o Congresso

O partido dito social-democrata sempre foi, durante os quase três anos do atual Governo, um partido populista. Economicista em favor dos mercados que mandam na política. O resto é conversa.

Francisco Sá Carneiro, fundador do Partido Social Democrata, sempre foi um homem de esquerda e só não entrou na Internacional Socialista porque o PS já lá estava. Se hoje estivesse vivo seria expulso do seu partido, como foi António Capucho, seu aliado e companheiro de sempre. Ou afastado, sem ir até à expulsão, como o saudoso Mota Pinto, Manuela Ferreira Leite, Pacheco Pereira ou bastantes outros que dizem o que pensam e não têm medo de falar contra a corrente...

Toda a política seguida pelo atual Governo foi contra o que disse durante a campanha eleitoral e profundamente populista, obedecendo à troika e aos mercados cegamente. Nos ricos não toca, nem com um dedo, bem como nos bancos e nas grandes empresas, a não ser para as vender - como tem feito com a maior parte do nosso património - por qualquer preço. Sem que os portugueses saibam, por informação do Governo, que nunca tornou cristalina nenhuma dessas operações, como devia. Quanto renderam? Porque o silêncio para o atual Governo foi sempre a alma do negócio...

É certo que o Governo durou estes anos porque o Presidente da República sempre o apoiou por se tratar do seu próprio partido. E tem tido sempre posições em favor dos mercados, ignorando as pessoas como sucedeu no discurso do Ano Novo - que afinal foram quem nele votou, e devem estar hoje bem arrependidas. As sondagens e a impopularidade que tem - e as vaias que lhe fazem - mostram-no à saciedade. Esquecendo a neutralidade política que a Constituição da República obriga o Presidente da República.

O Partido Social Democrata disse no seu XXXV Congresso que estava a começar um novo ciclo. Curiosamente depois de ter dito ao País que o pior tinha passado e se entrava agora na fase em que tudo estava a melhorar. Alguém acredita nisso?

A classe média está praticamente arruinada, e os trabalhadores, funcionários e pensionistas, aos quais cortaram os salários e as pensões, que amealharam toda a vida para garantir a sua velhice pensam que tudo vai pior. Estão furiosos, como aliás todas as classes profissionais: militares, académicos, professores, médicos, enfermeiros, engenheiros, economistas, jornalistas (os que não estão ao serviço dos patrões). E por isso, sempre que podem, vaiam e insultam os responsáveis, que mentem com todos os dentes que têm na boca. A sociedade portuguesa está dividida em duas partes: os apaniguados, que acreditam no que lhes diz o Governo, e por isso lhes pagam tanto; e os que o odeiam e nada esperam dele, ou seja, a esmagadora maioria, que está desesperada, emigra e não acredita no que diz o Governo.

O certo é que este Governo, tão eufórico e seguro de que estamos no melhor caminho, continua a impor a austeridade (que o Papa Francisco disse que mata), destruiu o Estado social, o Serviço Nacional de Saúde, parte das universidades, que eram excelentes, a ciência, que com Mariano Gago teve um tão grande desenvolvimento, obriga à falência toda a espécie de pequenas e médias empresas, destrói tribunais, vendeu os CTT, que davam lucro ao Estado, desfez-se, por pouco dinheiro, do nosso património, tendo criado grandes dificuldades aos sindicatos, aos municípios e aos partidos da oposição que a coligação maioritária não controla.

E agora, num Congresso mais ou menos improvisado, estavam velhos militantes sérios e inesperados que, mesmo fechando os olhos e tapando os ouvidos, não podem acreditar na euforia do Governo. O Congresso tornou-se uma brincadeira. Mas vai haver eleições para o Parlamento Europeu e depois para as legislativas, e muitos militantes têm o Partido Social Democrata nos corações.

Simplesmente o partido dito social-democrata não existe praticamente. O Governo tem afirmado que vem aí uma melhoria, mas continua a ser simplesmente populista. Como se explica, de outra maneira, o regresso à política partidária de Miguel Relvas, que praticamente destruiu a Universidade Lusófona que lhe deu um título universitário? É certo que Passos Coelho é amigo e antigo sócio de Miguel Relvas. Foi talvez uma prova de amizade. Mas a verdade é que não agradou nada aos velhos militantes social-democratas e mesmo talvez a alguns jovens. Depois de o entertainer Marcelo Rebelo de Sousa, como lhe chamaram no Congresso, ter feito rir muita gente no seu discurso e ter dito não ser candidato a Presidente da República, é certo que ainda falta muito tempo e a discrição é a melhor conselheira...

O Congresso foi divertido. Mas daqui por pouco tempo muita coisa se vai passar. As pessoas vão viver cada vez pior e ficar profundamente desesperadas. A troika sabe disso e teme que a situação portuguesa se agrave. Por isso gostaria tanto que o PS entrasse na coligação. Dava-lhe outra segurança. Mas só se o PS estivesse doido. E não está.

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